Era uma vez um alguém. Não interessa quem.
Ou se era homem ou mulher.
Só sei que era Alguém.
O interessante é saber porque a história que vou contar é sobre Alguém.
Alguém mentia. Parecia gostar disso.
Mas não temos certeza se era uma questão de gosto, de hábito ou de necessidade.
Sabemos que Alguém contava mentiras.
Desde pequenino era assim: Alguém era arteiro, levado, cativante.
E mentia.
Mentia com jeito de quem tá fazendo um carinho ou dando um presente. Alguém mentia pros pais, mentia na escola, mentia na prova, mentia na vida.
Mas Alguém também contava verdades. Ele gostava de seguir regras. Ele sentia prazer na honestidade das atitudes. Então por que mentia?
Não sei se por gosto, hábito ou necessidade.
O tempo foi passando e Alguém foi conquistando seu espaço na vida. Alguém era vivo, alegre e sagaz. Alguém conheceu outro alguém e se apaixonou. Alguém se apaixonava com frequência.
Não sei se por gosto, hábito ou necessidade.
As paixões mesmo que mentirosas, se tornavam paradoxalmente verdadeiras para Alguém.
Amor era verdade para Alguém. mesmo que não fosse.
Sabia que, quando mentia, o que dizia soava como música-para-voar.
Alguém acreditava que a mentira era doce e amiga e que se dissesse a verdade, o mundo ao seu redor se tornaria feio e cinza.
Para Alguém, a verdade era mesmo fumaça. A mentira era o seu céu azul.
Com isso, Alguém foi levando sua vida, acreditando que as mentiras que contava propagariam bem estar e felicidade a todos ao seu redor.
O problema foi quando Alguém começou a confundir seus pensamentos.
Começou a achar que a verdade era mentira e vice-versa. Começou a ter crenças embaçadas de que tudo era relativo e de que a verdade podia ser mentirosa.
Que loucura foi se tornando a vida de Alguém.
Não se sabia se era por gosto, hábito ou necessidade.
Era notório que ele entrelaçava suas mentiras no rol de verdades cotidianas que presenciava.
Com isso, Alguém foi ficando com medo da insanidade que se aproximava.
Medo de se perder em suas histórias e não saber mais diferenciar ficção de realidade. Começou a achar que ficção podia ser real e realidade ser somente fantasia.
Alguém queria anestesia.
Alguém não queria ninguém que lhe apontasse as diferenças entre verdade e mentira.
Alguém decidiu fugir. Alguém decidiu escapar de si mesmo.
Acho que não por gosto ou hábito, e sim por necessidade.
Alguém amou, viveu, procriou, se divertiu e divertiu alguéns e jamais conseguiu deixar de mentir.
O problema é que Alguém envelheceu.
Alguém começou a esquecer-se das coisas. Esquecia o que via, ouvia ou dizia. Sua memória foi ficando cada vez menor.
Convenhamos que para alguém que não se lembra bem, uma opção é melhor que duas, pois não confunde ninguém.
A verdade da mentira ou a fantasia da verdade?
Eis o nó.
Alguém não percebeu a confusão que mentiras entranhadas em verdades podia causar!
E aconteceu o que você está imaginando.
Alguém se perdeu.
Não sabia mais o que havia dito no dia anterior. Não lembrava de nada nem de ninguém. Ficava confuso e atônito. Ficava culpado.
Não era por gosto nem necessidade. Culpar-se já era um hábito.
Se contavam a ele o que ele havia dito na véspera, ele fazia um esforço enorme pra saber se aquele fato era verdadeiro ou não. Ele queria saber se podia apalpar a verdade ou delirar na mentira.
Mas não conseguia. Se desesperava.
Não tinha a ajuda de ninguém, pois suas mentiras quase nunca eram compartilhadas. Eram muitas vezes solitárias, escondidas.
Alguém foi ficando cada dia mais triste. Mesmo aquelas suas mentiras que cativavam a todos, deixaram de iluminar o ambiente.
Alguém enlouquecia.
Não era por necessidade ou hábito. Talvez fosse por gosto. Não, não era gosto não. Era desespero.
Alguém caiu em descrédito. Ninguém mais confiava em Alguém.
E para ser alguém na vida era preciso ter credibilidade.
Alguém era honesto e sincero. Acreditem-me. Contava mentiras com siceridade e crença.
Era genial (afinal, criava mentiras a toda a hora e as disfarçava perfeitamente por entre meias verdades ou mesmo verdades inteiras).
Mas a ninguém isso interessava.
Só queriam saber da verdade.
Somente o fato de que não se podia confiar em Alguém pra nada, pois mentia até quando não era preciso mentir pra agradar ou suceder.
Esse momento da história é a hora em que sabemos o final:
Alguém se perdeu de vez.
Não conseguia mais distinguir o que existiu do que foi inventado. Não conseguia discernir nada. Alguém perdeu o controle de si.
Certamente não por gosto, hábito ou necessidade.
Triste fim o de Alguém.
Calma.
Não é assim que a história de Alguém vai terminar. Apesar de todos os elementos apontarem pra este final nada feliz.
Eis a verdade:
Alguém toma uma decisão pois não tem mais nada a perder.
Mesmo sem que ninguém acredite, Alguém abole as mentiras e tenta, num esforço hercúleo, fuçar a realidade e retratá-la o mais verdadeiramente possível.
Isso deu trabalho a Alguém que era viciado em mentiras afinal.
Passado um bom tempo, Alguém se torna um novo alguém . Todos lhe devolvem sua credibilidade e, mesmo sem memória, tem a confiança dos outros e de si próprio, já que o risco de não conseguir diferenciar suas mentiras acabou.
Alguém agora é respeitado e aclamado como alguém que conseguiu mudar.
Tocante.
O que ninguém sabe é o que Alguém descobriu em sua saga:
Alguém agora sabia que tudo poderia ter sido mais fácil,
se desde o princípio ele soubesse,
que era uma questão de pintar a mentira com verdade.
Verdade vira mentira e mentira vira verdade.
Matematicamente tudo pode ser mentira e tudo pode ser verdade.
Por gosto, hábito ou mesmo necessidade.
Sendo assim, Alguém virou verdade também.
