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sábado, 19 de fevereiro de 2011

ALGUÉM DESCOBRIU A VERDADE


Era uma vez um alguém. Não interessa quem. 
Ou se era homem ou mulher. 
Só sei que era Alguém.
O interessante é saber porque a história que vou contar é sobre Alguém.
Alguém mentia. Parecia gostar disso.

Mas não temos certeza se era uma questão de gosto, de hábito ou de necessidade.

Sabemos que Alguém contava mentiras. 
Desde pequenino era assim: Alguém era arteiro, levado, cativante.
E mentia.
Mentia com jeito de quem tá fazendo um carinho ou dando um presente. Alguém mentia pros pais, mentia na escola, mentia na prova, mentia na vida.
Mas Alguém também contava verdades. Ele gostava de seguir regras. Ele sentia prazer na honestidade das atitudes. Então por que mentia? 

Não sei se por gosto, hábito ou necessidade.

O tempo foi passando e Alguém foi conquistando seu espaço na vida. Alguém era vivo, alegre e sagaz. Alguém conheceu outro alguém e se apaixonou. Alguém se apaixonava com frequência. 

Não sei se por gosto, hábito ou necessidade. 

As  paixões mesmo que mentirosas, se tornavam paradoxalmente verdadeiras para Alguém.
Amor era verdade para Alguém. mesmo que não fosse.
Sabia que, quando mentia, o que dizia soava como música-para-voar. 
Alguém acreditava que a mentira era doce e amiga e que se dissesse a verdade, o mundo ao seu redor se tornaria feio e cinza. 
Para Alguém, a verdade era mesmo fumaça. A mentira era o seu céu azul.
Com isso, Alguém foi levando sua vida, acreditando que as mentiras que contava propagariam bem estar e felicidade a todos ao seu redor.
O problema foi quando Alguém começou a confundir seus pensamentos. 
Começou a achar que a verdade era mentira e vice-versa. Começou a ter crenças embaçadas de que tudo era relativo e de que a verdade podia ser mentirosa.
Que loucura foi se tornando a vida de Alguém.

Não se sabia se era por gosto, hábito ou necessidade.

Era notório que ele entrelaçava suas mentiras no rol de verdades cotidianas que presenciava.
Com isso, Alguém foi ficando com medo da insanidade que se aproximava. 
Medo de se perder em suas histórias e não saber mais diferenciar ficção de realidade. Começou a achar que ficção podia ser real e realidade ser somente fantasia. 
Alguém queria anestesia. 
Alguém não queria ninguém que lhe apontasse as diferenças entre verdade e mentira.
Alguém decidiu fugir. Alguém decidiu escapar de si mesmo. 

Acho que não por gosto ou hábito, e sim por necessidade.

Alguém amou, viveu, procriou, se divertiu e divertiu alguéns e jamais conseguiu deixar de mentir. 
O problema é que Alguém envelheceu.
Alguém começou a esquecer-se das coisas. Esquecia o que via, ouvia ou dizia. Sua memória foi ficando cada vez menor.
Convenhamos que para alguém que não se lembra bem, uma opção é melhor que duas, pois não confunde ninguém. 
A verdade da mentira ou a fantasia da verdade?
Eis o nó.
Alguém não percebeu a confusão que mentiras entranhadas em verdades podia causar!
E aconteceu o que você está imaginando.

Alguém se perdeu.
Não sabia mais o que havia dito no dia anterior. Não lembrava de nada nem de ninguém. Ficava confuso e atônito. Ficava culpado.

Não era por gosto nem necessidade. Culpar-se já era um hábito.

Se contavam a ele o que ele havia dito na véspera, ele fazia um esforço enorme pra saber se aquele fato era verdadeiro ou não. Ele queria saber se podia apalpar a verdade ou delirar na mentira.
Mas não conseguia. Se desesperava.
Não tinha a ajuda de ninguém, pois suas mentiras quase nunca eram compartilhadas. Eram muitas vezes solitárias, escondidas.
Alguém foi ficando cada dia mais triste. Mesmo aquelas suas mentiras que cativavam a todos, deixaram de iluminar o ambiente.
Alguém enlouquecia.

Não era por necessidade ou hábito. Talvez fosse por gosto. Não, não era gosto não. Era desespero.

Alguém caiu em descrédito. Ninguém mais confiava em Alguém. 
E para ser alguém na vida era preciso ter credibilidade.
Alguém era honesto e sincero. Acreditem-me. Contava mentiras com siceridade e crença.
Era genial (afinal, criava mentiras a toda a hora e as disfarçava perfeitamente por entre meias verdades ou mesmo verdades inteiras).
Mas a ninguém isso interessava. 
Só queriam saber da verdade.
Somente o fato de que não se podia confiar em Alguém pra nada, pois  mentia até quando não era preciso mentir pra agradar ou suceder.

Esse momento da história é a hora em que sabemos o final:

Alguém se perdeu de vez. 
Não conseguia mais distinguir o que existiu do que foi inventado. Não conseguia discernir nada. Alguém perdeu o controle de si. 

Certamente não por gosto, hábito ou necessidade.

Triste fim o de Alguém.

Calma.

Não é assim que a história de Alguém vai terminar. Apesar de todos os elementos apontarem pra este final nada feliz.
Eis a verdade:
Alguém toma uma decisão pois não tem mais nada a perder.
Mesmo sem que ninguém acredite, Alguém abole as mentiras e tenta, num esforço hercúleo, fuçar a realidade e retratá-la o mais verdadeiramente possível. 
Isso deu trabalho a Alguém que era viciado em mentiras afinal.
Passado um bom tempo, Alguém se torna um novo alguém . Todos lhe devolvem sua credibilidade e, mesmo sem memória, tem a confiança dos outros e de si próprio, já que o risco de não conseguir diferenciar suas mentiras acabou.
Alguém agora é respeitado e aclamado como alguém que conseguiu mudar.
Tocante.
O que ninguém sabe é o que Alguém descobriu em sua saga:
Alguém agora sabia que tudo poderia ter sido mais fácil,
se desde o princípio ele soubesse,
que era uma questão de pintar a mentira com verdade. 
Verdade vira mentira e mentira vira verdade.
Matematicamente tudo pode ser mentira e tudo pode ser verdade.

Por gosto, hábito ou mesmo necessidade.
 
Sendo assim, Alguém virou verdade também.
 
Fim tão genial quanto foi a vida de Alguém.

3 comentários:

  1. "...se desde o princípio ele soubesse
    que era uma questão de pintar a mentira com verdade."
    Álguém me fez lembrar o poema de Drummond. Escolher a metade é como pintar a mentira...
    Tocante o conto até porque me remete a um Alguém que me lembra esse personagem, um alguém que acreditava vivamente em suas mentiras/fantasias.

    A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)

    A porta da verdade estava aberta,
    Mas só deixava passar
    Meia pessoa de cada vez.
    Assim não era possível atingir toda a verdade,
    Porque a meia pessoa que entrava
    Só trazia o perfil de meia verdade,
    E a sua segunda metade
    Voltava igualmente com meios perfis
    E os meios perfis não coincidiam verdade...
    Arrebentaram a porta.
    Derrubaram a porta,
    Chegaram ao lugar luminoso
    Onde a verdade esplendia seus fogos.
    Era dividida em metades
    Diferentes uma da outra.
    Chegou-se a discutir qual
    a metade mais bela.
    Nenhuma das duas era totalmente bela
    E carecia optar.
    Cada um optou conforme
    Seu capricho,
    sua ilusão,
    sua miopia.

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  2. Resolvi passar por aqui para conferir o post da Alzira no Facebook. Adorei a forma como escreve e descreve, Bia. Prendeu minha atenção e encontrei alguns rastros de pessoas com as quais convivi, muito parecidos com os que o seu Alguém deixou. Você é mesmo inspirada! Passearei por aqui sempre. Sei que encontrarei belas paisagens.

    Janete

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  3. Ótimo, Bia. O contemporâneo está aí, em suas palavras.
    Até podemos indagar: "O que é verdade?". Pois só ha mentira se houver uma Verdade. Não havendo Verdade, inexiste a Mentira. Dedução cristalina, óbvia.
    Houve o tempo das verdades metafísicas: o Bem. A verdade terrena seria somente simulacro da Verdade suprassensível. O Bem? A Ideia? O Uno? Deus?
    Depois que o mundo matou Deus, restamos nós, as criaturas humanas e o mundo ao nosso redor, com a sina fatal de construir nossas verdades.
    E o que foi a verdade no transcurso do tempo, senão a afirmação das conveniências culturais e das circunstâncias em que uma moralidade prevalecia sobre outra moralidade? (cf. A Genealogia da Moral, de F. Nietzsche).
    Entretanto, se nos limitamos ao senso comum, sabemos o que é certo e errado e, por aproximação, o que é talvez a verdade (com letra minúscula).
    Gosto do ditado: "Não faça aos outros o que você não quer que lhe façam!", fórmula popular do imperativo categório kantiano: "Age de tal maneira que tuas ações se transformem em leis universais".
    Diante desse aparente, mas único e possível discernimento da Verdade, indagamo-nos por que se mente tanto. Talvez por hábito, por medo, por receio de ser rejeitado pela sociedade que estabeleceu a mentira como critério de inclusão.
    Mas como a mentira tem pernas curtas, um dia o Pinóquio descobre que o nariz deu muitas voltas em torno de si mesmo e que sua vida se tornou um horrível labirinto de Minotauro.
    Mente-se porque a mentira permite-nos ingressar no mundo, em sua cultura predominante.
    Que fazer, então, para não ser mentiroso? É preciso coragem para enfrentar e recusar os modismos, os relativismos nocivos, e firmar-se como pessoa diante do mundo, tal qual se é, gordo, magro, inteligente, alegre, triste etc. Isso é dificílimo, tamanha a pressão do exterior. Mas possível para quem quer enfrentar o contemporâneo e, sem deixar de viver, passar razoavelmente incólume pela frivolidade que nada tem a ver com as questões permanentes do espírito.
    Belo o seu texto. Uma cutucada em todas as pessoas. Me fez pensar e dizer todas essas besteiras que vou postar em seu blog.
    Com a admiração de sempre.
    H.B.Leal.

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