Sempre quis escrever sobre um assunto recorrente em meus pensamentos, mas nunca tive coragem. Achava que não seria capaz de me expressar, ou que poderia ser julgada erradamente. Pensava também que poderia parecer hipócrita ou pretensiosa. Temia cair numa enorme colcha de clichês. Não estou certa de que essas coisas não acontecerão, mas sei que hoje me enchi de bravura e resolvi me aventurar a expor meus pensamentos.
Fidelidade é o assunto.
Quando eu era uma menina, entrando na adolescência, comecei a me interessar por rapazes pelo simples fato de estar curiosa e ter os hormônios da idade me impulsionando a experimentar. Não ligava se era namoro ou não, não pensava na importância do compromisso, não queria aliança, nem casamento. Não fazia planos e nem tinha um modelito de vestido de noiva rabiscado. Sabia unicamente que queria ter filhos, pensava em nomes e que queria pessoas interessantes por perto pra compartilhar minhas ideias e perspectivas.
Como a vida não tem a exatidão da matemática, tive logo namoros cheios de compromisso. Casei-me muito cedo e tive filhos sem sequer avaliar muito o tamanho da responsabilidade. Sabia somente que era algo grande que iria ocupar-me e encantar-me. Ou seja, todos aqueles compromissos e planos de futuro que não fiz, acabaram acontecendo em minha vida. E como nada foi muito pensado (confesso aqui certa impulsividade afetiva no estilo vamos-nessa-sem-pensar-muito- no-que-vem-depois), nunca pensei muito no que estava vivendo. Nunca me esmerei muito nas DRs (= Discutir Relação) , pois apesar de achá-las necessárias, no fundo acho-as improdutivas.Não levam a nada. Nunca pensei muito nas tragédias de uma relação, como o sofrimento trazido por uma traição, ou o final gelado de um relacionamento imposto por uma das partes envolvidas. Essas coisas eram pra mim histórias quase fantásticas que eu ouvia de parentes, no trabalho ou no salão de beleza. Jamais considerei a hipótese de vivê-las. A essa altura você deve estar, logicamente, me considerando ingênua ou mesmo alienada. Rótulo bem posto. Provavelmente sou mesmo. Ou, talvez não tenha tido tanto tempo e oportunidade de ter vivenciado situações que me ensinassem mais do que sabia e do que possivelmente sei.
Hoje, me dou conta da enorme gama de opções que existe em um relacionamento. Também me dou conta das inúmeras possibilidades do amor (não que eu saiba de todas, muito pelo contrário) e de suas implicações. Passei a considerar hipóteses sem defini-las ou colocá-las no campo do drama fantasioso. Acho que eu saí do mundo idealizado e comecei a enxergar a natureza humana de maneira mais real. Foi assim que me dei conta da humanidade de certos sentimentos e desejos. Do sentimento de culpa das pessoas quando se sentem divididas, em dúvida, ou quando hesitam ou oscilam em relação ao que sentem e por quem sentem. Deparei-me com a complexidade e subjetividade do significado da fidelidade. Ao mesmo tempo em que essa palavra nos remete à ideia de compromisso e firmeza de caráter, a mim, fidelidade lembra transparência - o que torna o tema ainda mais complexo.
O que é ser fiel? É não trair a pessoa com quem se tem um relacionamento amoroso? E o que é trair? É ter contato físico com alguém diferente do seu parceiro(a)? É beijar, abraçar e fazer sexo com um terceiro? Se for, relacionar-se intimamente com alguém pela internet não é traição, é? E se o seu marido ou mulher deseja vigorosamente alguém a quem admira, em quem pensa, a quem procura pra conversar e com quem ri, mesmo sem um contato físico tão íntimo? Não é traição, é? Mas dói. Dói de imaginar. Então (in)fidelidade é caracterizada por sentimentos e não por fatos concretos? E se o parceiro ou parceira não nos trai, é absolutamente fiel, mas nos dá uma estranha sensação de que está do nosso lado sem querer, desejando estar ao lado de outrem? A fidelidade neste caso vale à pena?
Não estou aqui fazendo apologia aos relacionamentos abertos e incitando ninguém a trair ou a aceitar a traição. Só estou compartilhando questionamentos e tentando dimensionar o que sentimos e o que vemos. Sou pela transparência de sentimentos e atitudes e é por isso que escrevo sobre este assunto. Que equilíbrio delicado este: ser fiel ao parceiro(a) nas atitudes e também nas emoções - ser fiel de corpo e de alma!
O tamanho da traição é o tamanho do nosso sofrimento quando dela sabemos. Bem como a fidelidade (ou infidelidade) tem o tamanho do nosso amor. Disso eu tenho certeza. Como também tenho certeza de que fidelidade e lealdade não são equações aritméticas e ensejam muitas variáveis. Acho que o primordial é a certeza do sentimento recíproco e do amor correspondido na relação, mesmo que em sintonias diferentes ao longo do tempo. Fidelidade é não enganar. Sim, ser respeitoso e transparente em relação ao outro. E, principalmente, ser leal. Não mentir quanto ao que sentimos pelo outro.
Mas há que se ter cuidado. Quem nunca pisou na bola? Quem nunca se propôs a parar de fumar e roubou um cigarro de alguém? Quem nunca abriu a geladeira pra roubar um doce quando estava sob rigorosa dieta? A traição pode ser acidental e a lealdade ao outro e ao que se sente estar intacta. Não acho que aceitar o erro do outro seja fácil e nem prazeroso. É difícil e bem duro! Mas o fundamental é pesar o que vale mais em nossas vidas e valorizar o que se tem nas mãos. Se não for perfeito, superemos o erro. A vida não se desenrola assim?
Portanto, sem hipocrisias, nem radicalismos, ser fiel é mesmo respeitar quem se ama, viver junto onde até quando houver afeto que sustente a relação e, se houver qualquer tipo de infidelidade, ser capaz de admitir (talvez somente pra si mesmo) o erro e reconhecer naquela pessoa o objeto do seu amor e da sua dedicação.É ser leal.
Fidelidade é o tributo diário que se faz ao amor de verdade. E recompensa tanto a quem o faz quanto a quem o recebe! Eu garanto!
