Era uma vez uma moça muito curiosa e sagaz que não saía de casa sem a sua sacolinha. Não, não estou me referindo à sua bolsa de mão ou mochila: era mesmo uma sacolinha de plástico com alças de tecido azul. Sua sacolinha era quase como uma bússola a orientá-la toda a vez que acordava e começava a interagir com a sociedade. Quando as pessoas a olhavam, ficavam logo intrigadas com a sacolinha. Ela carregava bolsa, mochila ou pasta. Tinha vezes que puxava até uma mala. Mas nunca deixava de carregar pela mão a sua sacolinha de plástico com alças de tecido azul.
Um dia, estava eu sentada num banco de praça quando vi a moça da sacolinha passar. Resolvi me levantar e ficar mais próxima a ela pra ver o que tinha de tão especial dentro daquela sacolinha! Foram necessários 15 minutinhos para que eu desvendasse aquele mistério! Ela carregava rótulos em sua sacolinha de plástico com alças de tecido azul. Sim, você entendeu bem: rótulos daqueles que rotulam mesmo!
Fiquei a uma distância segura (não queria que ela desconfiasse do meu interesse) e vou lhes contar como descobri que se tratava de rótulos.
A moça dos rótulos encontrou com outra mocinha que lhe disse que vendeu o carro dela porque prefere andar em transportes públicos e observar as pessoas. Antes de falar qualquer coisa, abruptamente a moça dos rótulos tirou um rótulo de sua sacola e colou no braço da mocinha: "FICOU POBRE".
Pouco depois ela encontrou um colega dos tempos de escola, um rapaz bem arrumado e cheiroso, vestindo uma camisa salmão e, antes que ele pudesse pronunciar um olá, ela tascou-lhe um de seus rótulos: "MEIO GAY".
A cada contato social ou observação ao seu redor, ela sacava um rótulo de sua bolsinha e punha em alguém. Depois desse dia, soube de várias histórias dela e da sua sacolinha de plástico com alças de tecido azul. Houve uma vez em que ela colou "VAGABUNDO" em alguém com quem cruzou no calçadão da praia só porque era uma segunda-feira e o inofensivo cidadão estava de sunga e havaianas. Ela não se emendava, usava todos os tipos de rótulos que você pode imaginar - "PIRANHA", "SAPATÃO", "CAFONA", "ÏGNORANTE", "INGRATO". Surpreendente a destreza com que aplicava os rótulos nas pessoas. Coisa mais que normal pra ela.
Certa vez, a moça chegou ao cúmulo de rotular o marido de uma mulher bonita que passou de “corno"! Por quê?- Pensei. “Porque se ela anda tão bonita por aí, pra agradar o marido é que não deve ser.”
E assim seguiu a moça dos rótulos: rotulando tudo e todos que passassem na sua frente. E se você acha que essa história tem alguma lição de moral, ou que a moça tem um final infeliz, está enganada!
A moça da sacolinha de plástico com alças de tecido azul sentia-se muito feliz e satisfeita com sua bolsinha de rótulos e tinha amigos (pelo menos ela os considerava assim) que se divertiam ao lado dela quando ela distribuía seus rótulos, incentivando-a e contribuindo com opiniões.
A moça dos rótulos acumula inimigos, mas ela nem liga. Prefere continuar na distribuição preconceituosa e hipócrita de seus rótulos. Aqueles que ficam em sua sacola de plástico de alças de tecido azul.

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