Há dias na vida da gente que são de uma normalidade absurda, e outros, absolutamente atípicos. Alguns desses dias inusitados são daqueles em que tudo dá errado e dos quais não gostamos nem de
nos lembrar. Outros são tão surpreendentes pelo seu ineditismo, que queremos mantê-los vivos em nossas memórias.
Mas há uma terceira categoria de dias anormais - aqueles que, nem péssimos, nem incríveis, nos provocam reflexões, questionamentos e, de certa maneira, mudam para sempre algum tipo de conceito que você já tinha abraçado de forma definitiva.
Sábado passado foi um desses dias.
Pra começar, eu não estava na minha cidade, nem no meu país e muito menos falando a minha língua - estava em Londres, o que por si só já tira a normalidade habitual dos meus dias. Para completar, em uma reunião profissional que prometia ser normal, conheci um homem também normal. Aparentemente. E o que conto depois, tornou aquele meu sábado o mais subjetivamente anormal possível.
O homem simpático, doce e educado de trinta e poucos, na verdade se tornou homem há quatro anos somente. E eu não desconfiaria disso se ele não me contasse. Para mim, se tratava de um cara normal, com um jeito às vezes "meio afetado" (vejam só que loucura é o comportamento humano!). Nada de tão anormal assim.
Conversando comigo, ele me contou da sua vida e da dificuldade de ter sempre vivido em "um corpo errado". Na verdade, ele nasceu ELA e nunca se sentiu à vontade no seu corpo de mulher. Nunca se interessou por homens e nunca se identificou com a imagem feminina. Não se via uma mulher. Ser lésbica não o contentava. Para ele, ele era um homem que pensava e agia como tal.
Um dia ele conversou com sua mãe que, mostrando-se compreensiva e aberta, o apoiou na decisão de mudar de sexo. Assim sendo, ele extirpou seus seios, mudou certidão de nascimento e identidade
e passou a tomar testosterona regularmente. ELA havia então se tornado ELE.
Depois de alguns minutos de perplexidade com a revelação, aproveitei a rara oportunidade e anormalidade da situação para bombardeá-lo com minhas dúvidas, curiosidades e indagações.
Pretensiosamente, estava ali tentando entender e fazer um julgamento de sua vida, com uma presunção ainda maior de poder, quem sabe, ajudá-lo a se entender melhor! Quanta prepotência
minha! Quanta subjetividade há neste tema!
Depois de longa conversa, não sei se o ajudei tanto quanto a minha vaidade imaginou, mas sei que ele me ajudou muito a "pensar fora da caixa", a entender melhor o que dificilmente terá um dia uma explicação exata e racional - a sexualidade humana.
O que leva um ser humano a desejar outro? Por que algumas pessoas se sentem atraídas pelo sexo oposto? Por que este comportamento é considerado o normal? Por que outras pessoas querem alguém do mesmo sexo ou até mesmo dos dois? Qual é o verdadeiro propulsor do desejo humano? O que catapulta a nossa felicidade?
Será que alguém que nasceu e cresceu em um corpo que não lhe trazia contentamento encontra felicidade numa transformação tão radical? Será que tentar agir de acordo com o seu corpo original poderia tê-lo feito mais feliz? Um homem com ovários se sente normal? Uma mulher com nome de homem e barba se sente parte legítima da sociedade?
Obviamente não encontrei todas estas respostas na nossa conversa. Não tenho tanta certeza de que algum dia alguém as encontrará.
Mas sei que conhecer alguém tão especial, me fez ver que tudo é possível e que a felicidade não é um julgamento que eu ou você possamos fazer do alheio! A felicidade é o eterno clichê que esperamos alcançar.
E, cá entre nós, vou lhes contar um segredo: o meu novo amigo transgendered é tão humanamente normal e alegre que me fez esquecer o quanto a vida pode ser complexa e me lembrar que momentos felizes surgem em situações banais como um fim de tarde
de verão num pub em Notting Hill.