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domingo, 28 de agosto de 2011

O NORMAL DE UM DIA ANORMAL (Saindo da caixa)

Há dias na vida da gente que são de uma normalidade absurda, e outros, absolutamente atípicos. Alguns desses dias inusitados são daqueles em que tudo dá errado e dos quais não gostamos nem de
nos lembrar. Outros são tão surpreendentes pelo seu ineditismo, que queremos mantê-los vivos em nossas memórias.
Mas há uma terceira categoria de dias anormais - aqueles que, nem péssimos, nem incríveis, nos provocam reflexões, questionamentos e, de certa maneira, mudam para sempre algum tipo de conceito que você já tinha abraçado de forma definitiva. 
Sábado passado foi um desses dias.
 Pra começar, eu não estava na minha cidade, nem no meu país e muito menos falando a minha língua - estava em Londres, o que por si só já tira a normalidade habitual dos meus dias. Para completar,  em uma reunião profissional que prometia ser normal, conheci um homem também normal. Aparentemente. E o que conto depois, tornou aquele meu sábado o mais subjetivamente anormal possível.

O homem simpático, doce e educado de trinta e poucos, na verdade se tornou homem há quatro anos somente. E eu não desconfiaria disso se ele não me contasse. Para mim, se tratava de um cara normal, com um jeito às vezes "meio afetado" (vejam só que loucura é o comportamento humano!). Nada de tão anormal assim.

Conversando comigo, ele me contou da sua vida e da dificuldade de ter sempre vivido em "um corpo errado". Na verdade, ele nasceu ELA e nunca se sentiu à vontade no seu corpo de mulher. Nunca se interessou por homens e nunca se identificou com a imagem  feminina. Não se via uma mulher. Ser lésbica não o contentava. Para ele, ele era um homem que pensava e agia como tal.

Um dia ele conversou com sua mãe que, mostrando-se compreensiva e aberta, o apoiou na decisão de mudar de sexo. Assim sendo, ele extirpou seus seios, mudou certidão de nascimento e identidade
e passou a tomar testosterona regularmente. ELA havia então se  tornado ELE.

Depois de alguns minutos de perplexidade com a revelação,   aproveitei a rara oportunidade e anormalidade da situação para bombardeá-lo com minhas dúvidas, curiosidades e indagações.
Pretensiosamente, estava ali tentando entender e fazer um julgamento de sua vida, com uma presunção ainda maior de poder, quem sabe, ajudá-lo a se entender melhor! Quanta prepotência
minha! Quanta subjetividade há neste tema!

Depois de longa conversa, não sei se o ajudei tanto quanto a minha vaidade imaginou, mas sei que ele me ajudou muito a "pensar fora da caixa", a entender melhor o que dificilmente terá um dia uma explicação exata e racional - a sexualidade humana.

O que leva um ser humano a desejar outro? Por que algumas pessoas se sentem atraídas pelo sexo oposto? Por que este comportamento é considerado o normal? Por que outras pessoas querem alguém do mesmo sexo ou até mesmo dos dois? Qual é o verdadeiro propulsor do desejo humano? O que catapulta a nossa felicidade?
Será que alguém que nasceu e cresceu em um corpo que não lhe trazia contentamento encontra felicidade numa transformação tão radical? Será que tentar agir de acordo com o seu corpo original poderia tê-lo feito mais feliz? Um homem com ovários se sente normal? Uma mulher com nome de homem e barba se sente parte legítima da sociedade?
Obviamente não encontrei todas estas respostas na nossa conversa. Não tenho tanta certeza de que algum dia alguém as encontrará.
Mas sei que conhecer alguém tão especial, me fez ver que tudo é possível e que a felicidade não é um julgamento que eu ou você possamos fazer do alheio! A felicidade é o eterno clichê que esperamos alcançar.
E, cá entre nós, vou lhes contar um segredo: o meu novo amigo transgendered é tão humanamente normal e alegre que me fez esquecer o quanto a vida pode ser complexa e me lembrar que momentos felizes surgem em situações banais como um fim de tarde
de verão num pub em Notting Hill.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

NORMAL,EU?

Para começar esse papo, descobri que as definições de "normal" são imprecisas, o que nos faz ficar cabreiros em relação ao nosso grau de normalidade.
Quando duvidei da minha normalidade, minha primeira providência foi buscar o significado do adjetivo (ou a palavra passou por um upgrade gramatical e já tem status de substantivo concreto?) no dicionário e uma das definições que achei foi:"adj m+f normal (normais [nɔr'majʃ] pl) 1 que é como os outros". Ou ainda "regular, habitual". Ahn??? Achei impossível ser só isso!! Muito amplo e pouco específico! Inconformada, continuei a buscar lago que me confortasse e satisfizesse, mas acho que as coisas só pioraram - "conforme à norma, exemplar, modelar". Exemplar?? Ser como os outros é ser um modelo? É dar um exemplo? Que outros? Quem me garante que "os outros" são merecedores do rótulo EXEMPLAR?
Foi então que descobri, com uma dose de angústia e outra de alívio, que ser normal é algo de uma subjetividade imcomparável, só perdendo para a subjetividade da percepção em si. Como conseguir ser normal? Quem é normal? É bom ser normal?
Diante de tamanha confusão mental e ávida por tentar me posicionar nesse mundo de (a)normalidades, iniciei um processo interno de testagem - um verdadeiro quiz mental.
Criei padrões, faixas de resultados e não cheguei a conclusão nenhuma. Quem pode padronizar sintomas tão diversos e subjetivos?
Quem nunca voltou em casa para se certificar que realmente fechou a porta ou desligou o forno? Eu já!
Quem nunca acordou com uma sensação real de que algo muito ruim ia lhe acontecer naquele dia se saísse de casa?? Você nunca!? Que sorte, eu já!
Quem nunca achou que estava infartando ou tendo um AVC quando na verdade se tratava de enxaqueca ou dor muscular? Nem responderei mais.. Você já deve imaginar minhas respostas!
Quem nunca perdeu algo importante por ter guardando num lugar seguro pra não esquecer? Quem já teve sua senha bloqueada de tanto errá-la ao digitar, e, por jurar que não ia esquecê-la, não a ter anotado?
Quem nunca amou muito ontem e hoje se sentiu indiferente a tudo? Quem evita pisar nas listras pretas do calçadão?
Quem, ao pensar na própria vida, se sente o protagonista de um dramalhão mexicano com final duvidoso?
Quem nunca ferveu a chupeta do seu bebê até derretê-la pra evitar bactérias? Quem nunca quis ultrapassar um completo estranho no trânsito só porque ele o ultrapassou antes?
Quem nunca largou a chave do lado de fora da porta? Quem nunca chorou copiosamente e, meia hora depois, riu e indignou-se por não saber o porquê de tal choro??
Quem nunca se sentiu excluído de um grupo ou conversa sem a menor razão concreta para tal? Quem nunca cogitou ao menos em cortar relações por conta de política, futebol ou religião?
Quem nunca teve uma "visão"?
Quem nunca entrou num avião certo de que aquele avião ia cair?
Quem nunca teve pequenos surtos e quebrou algo propositalmente?
Quem nunca teve um surto passageiro "de celebridade" se achando realmente importante pra mais do que 1 ou 2 dúzias de pessoas??
Diante de tantas indagações, muitas dúvidas, e a subjetividade da vida, prefiro ficar com a premissa de que NÃO SOU NORMAL.

Afinal, como diz um profeta velho conhecido de todos nós, "de perto ninguém é normal".
 
(PUBLICADA NO JORNAL A GAZETA EM 21/08/2011)

sábado, 6 de agosto de 2011

É A VIDA QUE NOS OCUPA OU NÓS OCUPAMOS A VIDA?




Quantas vezes nos pegamos reclamando do sem-número de coisas a fazer num único dia de 24 horas. As mulheres especialmente.
Mulher tem uma capacidade quase sobrenatural de se atribular - de açambarcar diferentes atribuições para si. Coisas de seu gênero.

Nós mulheres - alfa ou não - acordamos já preocupadas com o cardápio do almoço (mesmo quando não vamos comer em casa), com o bilhete da agenda escolar dos filhos, com aquela conta que não pagamos no dia certo, com o check-up médico que está atrasado e até com a vistoria do carro!
É um sem-fim de itens ocupando a nossa lista cerebral permanente! Isso gera ansiedade, mal estar e culpa!
Já houve vezes em que eu quis acordar no meio da noite pra anotar e-mails que eu deveria mandar e ligações que eu deveria fazer. Infelizmente, achei que abrir os olhos, acender o abajur e fazer anotações no meio da madrugada seria um surto quase psicótico, e tentei continuar a dormir. Equívoco. Talvez as anotações me tivessem servido como calmantes naturais ou mesmo ansiolíticos-tarja-preta e me tivessem feito dormir mais tranquilamente. Não anotei nada e não dormi mais.
Assumimos compromissos com a nossa família. Natural. Prometemos coisas aos filhos. Instintivo. Tentamos resolver ‘pepinos’ de nossos pais e parentes queridos. Tentamos agilizar as coisas no trabalho, pois nos obrigamos a ser eficientes e a nos destacar no ambiente profissional sempre que possível. Mesmo quando fingimos não ligar, todas nós sabemos o quanto queremos o nosso reconhecimento e glória!
Já ia me esquecendo! Temos um compromisso irremediável com a sociedade! Por mais que digamos que não, de alguma maneira estamos comprometidas. Queremos dar aos filhos os gadgets modernos que eles nos pedem porque muitos de seus amigos já os têm ou porque viram  propaganda na TV; queremos também comprar a bolsa, o sapato ou o relógio da moda, simplesmente porque os vimos em outras mulheres (em revista, internet ou pessoalmente) e adoramos! Em outras palavras, temos que ter tempo também para lutar pelos nossos objetos de desejo. Sem crítica nem sarcasmo. Somos mulheres vaidosas, mães que amam e querem satisfazer os desejos dos filhos e, sobretudo, somos humanas!
E tem mais! Temos uma casa pra administrar e um parceiro (considerando-se aqui a possibilidade de ser uma parceira!) para dividir nossas horas de lazer. Isso se nós não trabalharmos com os nossos parceiros na mesma empresa ou negócio, o que torna esse assunto ainda mais sério (mas isso é um capítulo à parte para uma outra ocasião!).
A administração da casa é tão fundamental que jamais imaginamos deixá-la para segundo plano. Fazemos compras, pagamos contas, orientamos empregados e idealizamos pequenas e grandes modificações e reformas. Além de organizar almoços, jantares e lanchinhos para amigos dos filhos! Sem falar nos hábitos femininos que tentamos manter como pintar cabelo, fazer unhas e depilar. Afinal, autoestima em dia é parte integrante do nosso equilíbrio físico e mental. Físico? Sim, temos que nos exercitar, nos manter em forma, pra saúde e pra aparência. Quando não o fazemos, carregamos a culpa do mundo! E assim seguimos com o nosso dia a dia.
E o parceiro, namorado, cônjuge ou seja lá o que for?
O nosso tombo é aqui. De todos os itens da nossa lista, dedicar um tempo ao romance, ao carinho, à parceria no lazer, ou à troca de experiências e aconselhamentos mútuos, deveria ser um item inadiável e irrevogável no dia ou ao menos na semana. No entanto, nós mulheres nos sobrecarregamos e deixamos "pra depois" , ou seja, deixamos pra segundo plano o momento do afeto, da manutenção da afinidade  e da parceria cotidiana.
Vida afetiva não se adia.
Uma conta pode atrasar, um filho pode ir pra creche sem a orientação adequada na agenda, a casa pode ficar sem pó de café, a pesquisa de preço na internet pode ficar pra depois, o telefonema pro parente também pode esperar. Mas não o exercício do carinho e do amor compartilhado.
Esse momento aparentemente à toa, vendo televisão junto com seu parceiro, comentando um filme, tomando um vinho, rindo de bobagem ou  mesmo jogando videogame juntos, pode render a nós mulheres mais leveza, mais saúde e até mais beleza!
Priorizar nossa lista de afazeres é um exercício fundamental. E reservar um tempo sagrado pra prática da carícia e do ‘ócio a dois’ deve ficar no topo dessa lista, mesmo quando aparentemente esse tempo pode esperar.
Não podemos nos atribuir um milhão de coisas atabalhoadamente sem ter tempo nem pra pensar no porquê de estarmos agindo assim. Ocupar nossas vidas de modo que inconscientemente não tenhamos tempo de questioná-la é delegar nossa felicidade ao cumprimento daquela nossa lista cerebral permanente. Não dá pra ser desse jeito. Simplesmente não dá.
A vida é que deve nos ocupar, na medida das nossas necessidades, mas também (e principalmente) das nossas preferências e prioridades.
A vida deve nos preencher com argumentos de felicidade, bem estar e prazer. E é esse o objetivo que deve vir sempre nos cinco primeiros (pelo menos) itens daquela nossa velha conhecida lista.