Para começar esse papo, descobri que as definições de "normal" são imprecisas, o que nos faz ficar cabreiros em relação ao nosso grau de normalidade.
Quando duvidei da minha normalidade, minha primeira providência foi buscar o significado do adjetivo (ou a palavra passou por um upgrade gramatical e já tem status de substantivo concreto?) no dicionário e uma das definições que achei foi:"adj m+f normal (normais [nɔr'majʃ] pl) 1 que é como os outros". Ou ainda "regular, habitual". Ahn??? Achei impossível ser só isso!! Muito amplo e pouco específico! Inconformada, continuei a buscar lago que me confortasse e satisfizesse, mas acho que as coisas só pioraram - "conforme à norma, exemplar, modelar". Exemplar?? Ser como os outros é ser um modelo? É dar um exemplo? Que outros? Quem me garante que "os outros" são merecedores do rótulo EXEMPLAR?
Foi então que descobri, com uma dose de angústia e outra de alívio, que ser normal é algo de uma subjetividade imcomparável, só perdendo para a subjetividade da percepção em si. Como conseguir ser normal? Quem é normal? É bom ser normal?
Diante de tamanha confusão mental e ávida por tentar me posicionar nesse mundo de (a)normalidades, iniciei um processo interno de testagem - um verdadeiro quiz mental.
Criei padrões, faixas de resultados e não cheguei a conclusão nenhuma. Quem pode padronizar sintomas tão diversos e subjetivos?
Quem nunca voltou em casa para se certificar que realmente fechou a porta ou desligou o forno? Eu já!
Quem nunca acordou com uma sensação real de que algo muito ruim ia lhe acontecer naquele dia se saísse de casa?? Você nunca!? Que sorte, eu já!
Quem nunca achou que estava infartando ou tendo um AVC quando na verdade se tratava de enxaqueca ou dor muscular? Nem responderei mais.. Você já deve imaginar minhas respostas!
Quem nunca perdeu algo importante por ter guardando num lugar seguro pra não esquecer? Quem já teve sua senha bloqueada de tanto errá-la ao digitar, e, por jurar que não ia esquecê-la, não a ter anotado?
Quem nunca amou muito ontem e hoje se sentiu indiferente a tudo? Quem evita pisar nas listras pretas do calçadão?
Quem, ao pensar na própria vida, se sente o protagonista de um dramalhão mexicano com final duvidoso?
Quem nunca ferveu a chupeta do seu bebê até derretê-la pra evitar bactérias? Quem nunca quis ultrapassar um completo estranho no trânsito só porque ele o ultrapassou antes?
Quem nunca largou a chave do lado de fora da porta? Quem nunca chorou copiosamente e, meia hora depois, riu e indignou-se por não saber o porquê de tal choro??
Quem nunca se sentiu excluído de um grupo ou conversa sem a menor razão concreta para tal? Quem nunca cogitou ao menos em cortar relações por conta de política, futebol ou religião?
Quem nunca teve uma "visão"?
Quem nunca entrou num avião certo de que aquele avião ia cair?
Quem nunca teve pequenos surtos e quebrou algo propositalmente?
Quem nunca teve um surto passageiro "de celebridade" se achando realmente importante pra mais do que 1 ou 2 dúzias de pessoas??
Diante de tantas indagações, muitas dúvidas, e a subjetividade da vida, prefiro ficar com a premissa de que NÃO SOU NORMAL.
Afinal, como diz um profeta velho conhecido de todos nós, "de perto ninguém é normal".
(PUBLICADA NO JORNAL A GAZETA EM 21/08/2011)
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